Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Estou deitado ao pé da minha Clarisse

Estamos deitados, em silêncio, há dez minutos, Clarissa estava voltada sobre o lado esquerdo e eu tinha a sensação de estar a ouvir o ritmo da sua pulsação na minha almofada. Era um ritmo lento, que tinha a certeza de estar a tronar-se cada vez mais lento. O nosso olhar ora estava fixo nos olhos um do outro, ora percorriam regularmente as feições um do outro. Dos olhos para os lábios, dos lábios para os olhos.

Desloquei a mão e aumentei suavemente a pressão dos meus dedos no braço dela. Clarissa entreabriu os lábios, um pequeno gesto sensual marcado por um ténue som explosivo. Não tínhamos de fazer mias nada, a não ser olhar um para o outro e recordar. Fodermos agora, tal como tudo o que estava para alem disso, eram coisas que se resolveriam por si próprias. Os seus lábios formularam o meu nome, mas sem um único som, sem um sopro. Não conseguia desviar os olhos dos lábios dela, tão dóceis, tão brilhantes, de uma cor natural tão rica. O bâton tinha sido inventado para que as mulheres pudessem desfrutar de uma versão mias pobre de lábios como estes.

_ hum... _ Voltaram os lábios a dizer

_ Pedro... _ Desta vez ela soltou o meu nome pela prega entreaberta daqueles lábios maravilhosos, mas depois franziu o sobrolho, inspirou profundamente e imprimiu às palavras um tom grave e extraordinariamente rico _ Acabou. É melhor admitirmos-lo já. Acho que não há mais nada entre nós. Não concordas?

Quando ela disse isto, não dei comigo a passar o limiar da conceptualização, nem vi o chão nem a cama a fugiram debaixo de mim, embora tinha certamente penetrado num espaço superior. Do qual podia observar estas coisas como se não estivessem realmente a acontecer. Era evidente que tinha entrando num estado de negação. Não sentia nada, rigorosamente nada. Não falava por não conseguir mas porque nada tinha a dizer. Clarissa estava agora num endereço neural da minha mente reservado para as mulheres que se julgavam enganadas e que esperavam alguma coisa de mim.

 

 

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PensarCusta às 19:06
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